Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr.
Provérbio Africano
In: A confissão da Leoa
Mia Couto, 2012
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segunda-feira, 29 de abril de 2019
sábado, 23 de março de 2019
Grande Desejo (Adélia Prado)
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atirar os restos.
Quando dói, grito ao,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever o livro com meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Adélia Prado, Bagagem, 1976
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atirar os restos.
Quando dói, grito ao,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever o livro com meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
Adélia Prado, Bagagem, 1976
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terça-feira, 5 de março de 2019
Casamento (Adélia Prado)
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a descamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado (MG, 1935-)
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a descamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado (MG, 1935-)
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Insônia
A chuva cai forte, mas não é capaz de acalmar meu sangue que corre rápido. como corre rápido. fico pensando, desde quando? quem sabe esse pensamento é bom pra fazer dormir. corre assim desde quando eu ouvia os pingos fortes de chuva pela janela da casa da minha avó, e torcia para cair um dilúvio pois, se assim fosse, o pequeno córrego que cruzava a rua poderia ter peixes. não durmo. desde quando eu já madrugava para ir para escola, isso já maior, quando já morava com meu pai, e já que tinha que acordar cedo, já praticamente não dormia, gastava cartelas e cartelas de pilha fazendo aquele discman rodar, já que. que perturbada que eu era. desde quando? desde quando eu subia no último andar do prédio e pensava o que aconteceria se eu caísse? mas eu sabia que não ia cair, eu sempre soube. mas o sangue correndo rápido. desde quando eu confrontei o cara do sebo dizendo eu não tenho nenhum interesse por pequeno príncipe ou fernão capelo gaivota. eu quero ler Virginia Woolf. eu já sofria, sabe-se deus porque. e o sangue já corria assim. e eu buscava algum consolo. o livro do desassossego. foi o que o psiquiatra me receitou hoje. vá ler o livro do desassossego. e eu disse, eu já li. e ele ficou assim, meio sem saber o que dizer. e eu disse, e acho que se fernando pessoa tivesse tomado anti-depressivo não teria feito aquela obra. ele teria sofrido menos. disse meio ressentida. não sei se chegou a ser uma piada. acho que eu tentei ser simpática. e o psiquiatra ficou me olhando, meio sem saber, já abrindo a porta porque psiquiatra do convênio sempre tem sala cheia. e nada do meu sono, esses pensamentos não estão bons para dormir. pode um sofrer valer a pena? não se trata de utilidade, se trata de condição. quem tem assim o sangue correndo rápido, sofre, chora e ainda não dorme. aceite-se. desde quando eu olhava a porta de madeira, de novo volto para a casa da minha avó, outro pensamento, eu olhava a porta de madeira do banheiro, de noite, e via um desenho lá. e eu achava que era uma santinha, e ela me protegia. mas eu tentava entender, se deus tem uma mão para cada criança, quantas mãos ele teria? não, aquilo não fazia tanto sentido, mas era melhor não desconfiar. e isso era quando eu não conseguia dormir. a minha bisinha me ensinou a rezar pra dormir "com deus me deito, com deus me levanto, com a graça de deus o espírito santo". já tentei hoje várias vezes, não funciona. desde quando eu escrevia, escrevia, escrevia loucamente, já no ensino médio, e eu guardei todos esses escritos perturbados e quentes, e anteontem abri essa caixa cheia de pastas cheias de escritos e meu sangue correndo rápido, e o coração batendo bum bum bum, porque tanto? há quanto tempo tanto? me sinto cansada, queria dormir, e aqueles escritos desenhados em letra rápida, é um passado que eu quis guardar, mas ele vive aqui, correndo rápido meu sangue de madrugada. desde quando?
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Romances de Formação - Bildungsroman
1796, Alemanha - Goethe - Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister
1884, EUA, Mark Twain - As aventuras de HuckleBerry Finn
1888, Brasil - Raul Pompeia - O Ateneu
Protagonista: Sergio, no Colégio Interno Ateneu
1916, Irlanda - James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem
1919, Alemanha, Herman Hesse - Demian
1924, Alemanha, Thomas Mann, A Montanha Mágica
1926, Argentina, Roberto Arlt - O brinquedo raivoso
1943, Brasil - Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem
Protagonista: Joana
1951, EUA - J. D. Salinger - Apanhador no campo de centeio / The Catcher in the Rye
Protagonista: Holden Caulfield / Colégio Pencey, NY
1963, EUA, Sylvia Plath, A redoma de vidro / The bell jar
1986, Japão - Haruki Murakami - Norwegian Wood
Romances de Formação - Bildungsroman - Coming of age story
1884, EUA, Mark Twain - As aventuras de HuckleBerry Finn
1888, Brasil - Raul Pompeia - O Ateneu
Protagonista: Sergio, no Colégio Interno Ateneu
1916, Irlanda - James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem
1919, Alemanha, Herman Hesse - Demian
1924, Alemanha, Thomas Mann, A Montanha Mágica
1926, Argentina, Roberto Arlt - O brinquedo raivoso
1943, Brasil - Clarice Lispector - Perto do Coração Selvagem
Protagonista: Joana
1951, EUA - J. D. Salinger - Apanhador no campo de centeio / The Catcher in the Rye
1963, EUA, Sylvia Plath, A redoma de vidro / The bell jar
1986, Japão - Haruki Murakami - Norwegian Wood
Romances de Formação - Bildungsroman - Coming of age story
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quarta-feira, 7 de março de 2018
Livro do Desassossego
"O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo" (p. 66).
"Desde que vivo, narro-me" (p. 145).
"Nunca desembarcamos de nós". [...]. "Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo". (p.157).
Bernardo Soares/ Fernando Pessoa (entre 1914 e 1935)
"Desde que vivo, narro-me" (p. 145).
"Nunca desembarcamos de nós". [...]. "Quem cruzou todos os mares cruzou somente a monotonia de si mesmo". (p.157).
Bernardo Soares/ Fernando Pessoa (entre 1914 e 1935)
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
The Great Gatsby
Gatsby believed in the green light, the orgastic future that year by year recedes before us. It eluded us then, but that's no matter - tomorrow we will run faster, strech out our arms farther... And one fine morning -
So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.
The Great Gatsby, 1925 - Scott Fitzgerald
Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a no recua à nossa frente. Ele nos escapara então, mas isto não importava - amanhã corremos mais rápido, estenderemos mais adiante nossos braços... E numa bela manhã -
E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.
O Grande Gatsby, tradução de Roberto Muggiati (ed. Record, 2013)
So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.
The Great Gatsby, 1925 - Scott Fitzgerald
Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a no recua à nossa frente. Ele nos escapara então, mas isto não importava - amanhã corremos mais rápido, estenderemos mais adiante nossos braços... E numa bela manhã -
E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.
O Grande Gatsby, tradução de Roberto Muggiati (ed. Record, 2013)
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terça-feira, 2 de janeiro de 2018
"Life's but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and then is heard no more. It is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing."
Shakespeare, Macbeth / Inspiração para Faulkner - The Sound and the Fury, 1929
Shakespeare, Macbeth / Inspiração para Faulkner - The Sound and the Fury, 1929
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domingo, 24 de dezembro de 2017
Natal
Você conhece aquele ditado? -
foi o que o pai disse ao telefone -
"em árvore frondosa não nascem bons frutos".
A árvore sou eu, filhas.
foi o que o pai disse ao telefone -
"em árvore frondosa não nascem bons frutos".
A árvore sou eu, filhas.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Literatura Britânica - British Literature
William Shakespeare (1564-1616)
Jane Austen (1775-1817)
- 1813 - Pride and Prejudice / Orgulho e Preconceito
Willian Blake (1757-1827)
Mary Shelley (1797-1851)
- 1818 - Frankstein
Charles Dickens (1812-1870)
- 1838 - Oliver Twist
- 1860 - Grandes Esperanças
Charlotte Brontë (1816-1855)
Oscar Wilde (1854-1900)
- 1890 - O retrato de Dorian Gray
Arthur Conan Doyle (1859-1930)
- 1891 - As Aventuras de Sherlock Holmes
Virginia Woolf (1882-1941)
- 1925 - Mrs Dalloway
- 1928 - Rumo ao Farol
Aldous Huxley (1894-1963)
George Orwell (1903-1950)
Doris Lessing (1919-2013)
Jane Austen (1775-1817)
- 1813 - Pride and Prejudice / Orgulho e Preconceito
Willian Blake (1757-1827)
Mary Shelley (1797-1851)
- 1818 - Frankstein
Charles Dickens (1812-1870)
- 1838 - Oliver Twist
- 1860 - Grandes Esperanças
Charlotte Brontë (1816-1855)
Oscar Wilde (1854-1900)
- 1890 - O retrato de Dorian Gray
Arthur Conan Doyle (1859-1930)
- 1891 - As Aventuras de Sherlock Holmes
Virginia Woolf (1882-1941)
- 1925 - Mrs Dalloway
- 1928 - Rumo ao Farol
Aldous Huxley (1894-1963)
George Orwell (1903-1950)
Doris Lessing (1919-2013)
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