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domingo, 26 de maio de 2019

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

[...]
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo, 1940

sábado, 9 de janeiro de 2016

Liquidação

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento  encanado com sua vista do mundo
                                         seus imponderáveis
                                         por vinte, vinte contos.


Carlos Drummond de Andrade - Boitempo, 1968



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Hoje não escrevo - Drummond

"Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples caridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. [...]

O que você perde em viver, escrivinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. [...]

Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação."

Carlos Drummond de Andrade, O poder ultra jovem, 1982

terça-feira, 9 de junho de 2015

Quadrilha da cãodemia

Marcio falava mal de Guilherme que falava mal de Bia que falava mal de Diego que falava mal de Luisa que falava mal de Renata que não falava mal de (quase) ninguém.

Marcio virou professor universitário,Guilherme casou-se, Bia mudou de país, Diego ficou muito rico, Luisa foi vender bolo e Renata foi se aconselhar com Ana Antonia que não tinha entrado na história.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Drummond - Declarações à colegial que veio entrevistar-me

Também sou estudante, mas a vida fez de mim aluno repetente. Ou nasci repetente, é isso. Torno a fazer sempre o mesmo vestibular, pago invariavelmente a mesma correção monetária, e só gosto de escrever sobre as eternas mesmas coisas, que são poucas e mínimas.
Ser aluno repetente, viu? é uma forma de saber mais do que os outros, embora não sabendo nada de novo. Ou melhor, nada de nada. Se você não entende esta sabedoria canhota, nem eu. Mas dá para viver, sem as aflições e cortes do circuito do ativismo. Olhe, o gafanhoto me fascina, se pousa nesta poltrona, vindo de onde? e a viagem em redor do mundo me deixa inapetente. Nem precisa que o gafanhoto pouse. Basta figurá-lo, pensar o gafanhoto. Entro no escuro, acendo a luz: lá está ele. Também pode ser o contrário: é apagar a luz e sinto que, sutil, o gafanhoto vem me visitar.
[...]
E, pessoalmente, serei mais uma vez reprovado...
Não que eu deteste a reprovação, fique sabendo. Todas as vezes (raras) em que alguém me aprovou, experimentei uma espécie de remorso. Estava traindo a minha natureza.
[...]
Confesso que meu trabalho de ser é afetado pela necessidade de dar satisfação aos outros, seja sob a forma de deveres políticos e sociais, seja para explicar por que não admiro, digamos, os filmes de Bergman. Cercado de prazos, papéis, condicionamentos, cortesias e outros empecilhos, não sei me explicar bem. Donde os juízos críticos: É selvagem, é pueril, é espertíssimo, está escondendo alguma coisa.
A tal ponto, ouviu? que costumo procurar em toda espécie de bolsos que a gente carrega, e não encontro, aquilo que devo estar escondendo.
[...]


Carlos Drummond de Andrade
Boca de Luar


sexta-feira, 6 de junho de 2014

José (Drummond)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora José?

[...]

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?