A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.
Terra Sonâmbula, Mia Couto, 1992
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domingo, 16 de junho de 2019
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Moribundos
"Quase até o fim, o comerciante continua ativo o quanto pode. Sonha com tudo o que alcançou, e com o que ainda tem pela frente, levanta-se e percebe que o empregado esta morrendo congelado, deita-se sobre ele com seu grosso casaco aquecido, cai lentamente no sono e congela até morrer. Nikita, seu empregado camponês, entrega-se à morte pacientemente e sem resistir:
A ideia de morte, a qual provavelmente o levaria nesta mesma noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de dolorosa ou terrível. Isso porque ele tivera muitos poucos dias felizes e de festa em sua vida, mas muitas semanas amargas, e estava cansado do trabalho incessante.
Tolstoi descreve a habitual subserviência do trabalhador a seu senhor terreno [...]. Tenta, portanto, deixar bem explicitada a conexão entre a maneira como uma pessoa vive e a maneira como morre"
Norbert Elias, A Solidão dos Moribundos, 1982
A ideia de morte, a qual provavelmente o levaria nesta mesma noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de dolorosa ou terrível. Isso porque ele tivera muitos poucos dias felizes e de festa em sua vida, mas muitas semanas amargas, e estava cansado do trabalho incessante.
Tolstoi descreve a habitual subserviência do trabalhador a seu senhor terreno [...]. Tenta, portanto, deixar bem explicitada a conexão entre a maneira como uma pessoa vive e a maneira como morre"
Norbert Elias, A Solidão dos Moribundos, 1982
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sábado, 5 de março de 2016
"Às noites, tornava a sentir a velha vontade de me matar. Uma vontade quase lírica, sem possibilidades de realização, decerto, mas que voltava a me tomar longas horas nas insônias; via o veneno no frasco, imaginava o golpe seco do punhal, depois a felicidade de ir me extinguindo, de sentir a vida fugindo devagarinho, como o sangue a pingar do pulso navalhado.
Para mim, pobre pequena, que na idade dos sonhos e das esperanças não sentia mais esperanças nem sonhos e me via num desespero gratuito, inteiramente só no mundo imenso, sem solução e sem destino, a morte parecia o porto, a tranquilidade, o limite. O que é difícil, entretanto, é me explicar direito, porque o tema já traz em si uma carga centenária de banalidade, é uma espécie de lugar-comum da tristeza humana, literária ou vivida.
Na morte voluntária, o que sempre me apavorou, naquele tempo como hoje, é essa tragicômica publicidade que a reveste. E a mim que sempre tive tão profunda aquela necessidade da morte, sempre me inspirou horror a ideia de dar também espetáculo para a plateia que fica, do odioso sensacionalismo do gesto, que é como um impudor póstumo.
E porque não me esquecia disso, cuidava então nas mortes discretas [...]
Rachel de Queiroz - As Três Marias [1939]
Para mim, pobre pequena, que na idade dos sonhos e das esperanças não sentia mais esperanças nem sonhos e me via num desespero gratuito, inteiramente só no mundo imenso, sem solução e sem destino, a morte parecia o porto, a tranquilidade, o limite. O que é difícil, entretanto, é me explicar direito, porque o tema já traz em si uma carga centenária de banalidade, é uma espécie de lugar-comum da tristeza humana, literária ou vivida.
Na morte voluntária, o que sempre me apavorou, naquele tempo como hoje, é essa tragicômica publicidade que a reveste. E a mim que sempre tive tão profunda aquela necessidade da morte, sempre me inspirou horror a ideia de dar também espetáculo para a plateia que fica, do odioso sensacionalismo do gesto, que é como um impudor póstumo.
E porque não me esquecia disso, cuidava então nas mortes discretas [...]
Rachel de Queiroz - As Três Marias [1939]
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Notícia de jornal
Tenho medo de ficar muito velha e nunca conseguir morrer. Tenho conhecido alguns idosos assim e isso me assusta, mas talvez meu pesadelo seja pior que a realidade empírica que observo.
Sempre que leio a notícia sobre a morte de alguém famoso no jornal, por um segundo, sinto um certo alívio - o mundo continua no lugar, as pessoas em algum momento morrem, você não viverá para sempre -.
Reconheço que é um pensamento pouco racional, mas me é frequente.
Sempre que leio a notícia sobre a morte de alguém famoso no jornal, por um segundo, sinto um certo alívio - o mundo continua no lugar, as pessoas em algum momento morrem, você não viverá para sempre -.
Reconheço que é um pensamento pouco racional, mas me é frequente.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Janela
"Janelas do meu quarto,
do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é [...]" - álvaro de campos
Se, cada vez que abrimos a janela,
temos que, ao final do dia, fechá-la,
quantos dias assim se vão?
Abrir: esperanças, dia, sol, ar fresco, cheiro de rua.
Fechar: fim de um dia, semana, mês, ano, escuridão, minha morte.
Oh janelas do meu quarto, entre dias e noites, vamos nos abrindo e fechando, eu e você.
do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é [...]" - álvaro de campos
Se, cada vez que abrimos a janela,
temos que, ao final do dia, fechá-la,
quantos dias assim se vão?
Abrir: esperanças, dia, sol, ar fresco, cheiro de rua.
Fechar: fim de um dia, semana, mês, ano, escuridão, minha morte.
Oh janelas do meu quarto, entre dias e noites, vamos nos abrindo e fechando, eu e você.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Sabiá com trevas
IX.
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
Manoel de Barros
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
Manoel de Barros
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