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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Conselho

Disseram assim: jogue a culpa fora e fique apenas com a responsabilidade.
Agora estou em pleno exercício de higienização da culpa. Qualquer sinal dela, xô pra lá! E tento ficar pensando como a responsabilidade agirá no lugar.

Por exemplo: hoje senti culpa por ter comprado um livro de poesia, mesmo não tendo tempo para ler nos próximos dias (já tenho outros tantos na fila de espera) e mesmo não tendo dinheiro sobrando. Então a responsabilidade, tomando seu protagonismo, falou: "mas também não estamos passando fome! Não vai ser um livrinho a mais de poesia que vai nos deixar pobre de uma hora para a outra".
Bom, dessa culpa até que consegui me livrar.

Mas são tantas, a todo momento! Hoje teve outra culpa, que conversando com duas amigas dei a entender que elas teriam dificuldade para conseguir trabalhos nessa fase, já que eu também tive. Falei no embalo da sinceridade, sem pensar muito. Saí com uma culpa terrível. Porque não disse a eles que seria tudo ótimo! O que sei eu do que será da sorte delas?

Se começo a reparar, talvez em cada ação, em cada fala, em cada dito ou não dito, eu sinto culpa. Nasci culpada! Merda.

Responsabilidade, você terá muito trabalho para dominar esse solo. Embora eu já tenha bastante de você, por onde vou também levo as minhas culpinhas de estimação.


sábado, 16 de julho de 2016

O metrô e os indivíduos




Will Eisner - Nova York: a vida na grande cidade [New York: life in the big city, 1986]

quinta-feira, 21 de abril de 2016

dor de cabeça

durmo mal
estou engasgada
me sinto enjoada
quieta
fechada
encurralada
trabalho feito louca mas sempre tenho culpa, não sei de onde vem, não tenho tempo nem dinheiro pra fazer psicanalise, vou fazer uma tese de bosta, um casamento..., tenho raiva das pessoas, irritações, como elas se suportam? eu nao.
nao estou bem.
um lixo
consegui algumas coisas outras não.
as que consegui me mortificam por ter que trabalhar muito, as que não me maltratam por me sentir incapaz
preciso me libertar
não sei onde é a saída
a página em branco, a letra preta, mas não acho.

algumas pretensões que eu tinha já não tenho mais, tenho outras no lugar
medíocres
tudo uma grande bosta, estou de saco cheio, meias palavras, meios olhares, sei, sei, claro, conheço, sim, sim, claro, fala na cara filho da puta
medíocre
como me maltrato
escolhas do destino
esse é o seu, conforme-se
ou não

as pessoas também são loucas
mas elas falam, elas têm voz
eu também tenho voz, pelo menos não sou assim chata, sou chata, não sou chata.

mais respeito por favor.
minha dor também doi
minha humildade é bonita, nao preciso ser melhor do que ninguem, e quantas vezes tenho vontade de pedir desculpas.
E tenho vontade de fumar.
Agora: não sei se fumo ou se só curto minha dor de cabeça.

Que merda
Estou desanimada.




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Histérica é a mãe, é a filha, sou eu, sua filha, se é assim que você quer me chamar, histérica.
Somos muitas, histéricas, loucas, neuróticas, cansadas de tantos desafios cotidianos para garantir um mínimo de respeito.
Não te chamo de filho da puta porque minha vó não é puta, bem que poderia sê-lo, somos todas putas, não? Somos todas putas.
Vadias, mal-amadas, mal-comidas, vai tomar remédio! Vai se tratar! Vai se foder!

Quanta delicadeza.
tudo isso dói
mas não choca
Só fortalece.
E dá mais certezas do porquê estamos todas aí, histéricas e unidas.



terça-feira, 9 de junho de 2015

Casa

Pra quem sempre teve um lar,
Ter um
pode parecer coisa pouca, careta, medrosa, conservadora, medíocre.

Pra quem, sem ter antes tido, o construiu,
Mesmo sendo feminista - os pilares da casa suportam tantas contradições?
O lar pode ser tudo o que se tem.



sexta-feira, 1 de maio de 2015

Dedicatória


Este ensaio é dedicado ao homem ordinário. Herói comum. Personagem disseminada. Caminhante inumerável. Invocando, no limiar de meus relatos, o ausente que lhes dá princípio e necessidade, interrogo-me sobre o desejo cujo objeto impossível ele representa. A este oráculo que se confunde com o rumor da história, o que é que pedimos para nos fazer crer ou autorizar-nos a dizer quando lhe dedicamos a escrita que outrora se oferecia em homenagem aos deuses ou às musas inspiradoras?


Michel de Certau

A invenção do cotidiano - vol. 1 - Artes de fazer
Editora Vozes

domingo, 15 de março de 2015

Anonimato

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo



sábado, 20 de setembro de 2014

Tratado da Mulher Comum [em elaboração]


É  a mulher pardal.
é a mulher capim.

A mulher comum sabe que "vencer", seja lá o que isso signifique, lhe faria pensar que é superior aos outros. Mas não. Ela é comum.

A mulher comum é boa. Quando, na rodoviária, conversa com a moradora de rua, percebe que são feitas da mesma carne, mesmo espírito, mesma sorte. Não. A sorte é diferente. Mas poderia não ser.

[A moradora de rua lhe conta que se lava com sabonete Johnson no latrina do banheiro da rodoviária; antes, lava a latrina com uma esponja de louça. Conta-lhe que, assim, fica bem limpinha.]

Quando a mulher comum chora, suas lágrimas são muito importantes.

Qualquer lampejo de criatividade que a mulher comum sinta, lhe traz ansiedades, nervoso, tremores.

A mulher comum vê a artista dançar na TV e sente inveja. A jornalista fala tão bonito.


[Digo mulher comum para corrigir uma antiga distorção histórica. Se você é homem e tem alguma capacidade para lidar com seu machismo, poderá se identificar].

domingo, 24 de abril de 2011

Primeiro cabelo branco

É um cabelo grosso e acinzentando, como deveria ser, bem no meio da cabeça.
Olho bem no espelho diante do susto, procuro mais algum sinal, vejo então que os olhos já tem duas ruguinhas de cada lado. Sinto um desespero e um certo orgulho diante dessas evidências, e penso: terei que enfrentar essa situação tão séria e banal como todo mundo, universalmente, a enfrenta.
E sei que para as mulheres a questão é ainda mais complexa...
Tento me imaginar daqui a dez anos, quando todos esses pequenos sinais estarão mais acentuados. Vem à minha mente a imagem de outras mulheres que conheço, lindas, bem mais velhas do que eu. Também para elas, e para todas as outras, isso sem dúvida, em algum momento, foi uma questão permeada por certa angústia diante de um espelho bem iluminado. E, no entanto, estão aí, como se sempre tivessem tido 50 anos.

A gente envelhece todos os dias.

De pouquinho em pouquinho.

E isso, na verdade, é bom.

Bom porque não é de repente, não é que um dia você acorda e sua cara já não é mais a mesma. Bom, porque ela nunca foi a mesma. Criança, adolescente, jovenzinha, mulher feita, mulher madura, uma senhora, uma velhinha. Todos os dias, um rosto diferente. Desde sempre.

Bom porque o tempo, ao invés de ficar parado, anda. E ao invés de fazer isso silenciosamente, vai nos mostrando "estou andando e, olha, você está mudando junto comigo", "caminhamos lado a lado, todos os dias", ele vai explicando pra gente. Assim, ele permite que a gente também siga nessa linha, só que vivendo.

E a vida, por mais dura que possa nos parecer às vezes, é a única oportunidade segura que nós temos de pensar, sentir, agir, amar e mudar. E isso, em si e sem mais explicações, só pode ser bom.