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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Richard Avedon (1923-2004) - NY

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sobre a distinção e o orgulho (repassado de susto)

"Na primeira noite de representação lírica, Fernando levou ao teatro a família. Foi uma festa para as três senhoras; D. Camila, apesar de sua lhaneza e modéstia, sentiu ao atravessar a multidão pelo braço do filho um aroma de orgulho, mas desse orgulho repassado de susto, que é antes a consciência da própria humildade, do que desvanecimento de egoísmo. As filhas partilhavam este sentimento; e acreditavam que todas as outras moças lhe invejavam aquele irmão." (Narrador, p.47)

"O ouro desprende de si não sei que miasmas que produzem febre, e causam vertigens e delírios. É necessário ter um espírito muito forte para resistir a essa infecção" (Aurélia, p. 170)

"Aqueles que se exercitam em jogar as armas, pensam que tudo se decide pela força. O mesmo acontece com o dinheiro. Quem o possui em abundância persuade-se que tudo se compra" (Aurélia, p. 170).

Senhora (1875), José de Alencar (1829-1977)

"[Em Senhora] Trata-se da compra de um marido; e teremos dado um passo adiante se refletirmos que essa compra tem um sentido social simbólico, pois é ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes da época, como o casamento por dinheiro. Ao inventar uma situação crua do esposo que se vende em contrato, mediante pagamento estipulado, o romancista desnuda as raízes da relação, isto é, faz uma análise socialmente radical, reduzindo o ato ao seu aspecto essencial de compra e venda." (Antonio Candido in Literatura e Sociedade, Capítulo 1, Crítica e Sociologia).

sábado, 10 de junho de 2017

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

[...]

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!

[Paulicéia Desvaira, 1922]
[Mário de Andrade]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O enfermeiro - Machado de Assis

Adeus, meu caro senhor. Se achara que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também  com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: "Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados".


In: Mário de Andrade: seus contos preferidos, Luiz Rufatto (org), Ed. Tinta Negra.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

[...] "não se constranja, meu irmão, encontre logo a voz solene que você procura, uma voz potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa", mas me contive [...]



6.
Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse "para onde estamos indo?" - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: "estamos indo sempre para casa".



"[...] sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a régua que estes usam para medir o mundo;"



Lavoura Arcaica, 1975, Raduan Nassar

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Moribundos

"Quase até o fim, o comerciante continua ativo o quanto pode. Sonha com tudo o que alcançou, e com o que ainda tem pela frente, levanta-se e percebe que o empregado esta morrendo congelado, deita-se sobre ele com seu grosso casaco aquecido, cai lentamente no sono e congela até morrer. Nikita, seu empregado camponês, entrega-se à morte pacientemente e sem resistir:

A ideia de morte, a qual provavelmente o levaria nesta mesma noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de dolorosa ou terrível. Isso porque ele tivera muitos poucos dias felizes e de festa em sua vida, mas muitas semanas amargas, e estava cansado do trabalho incessante.

Tolstoi descreve a habitual subserviência do trabalhador a seu senhor terreno [...]. Tenta, portanto, deixar bem explicitada a conexão entre a maneira como uma pessoa vive e a maneira como morre"

Norbert Elias, A Solidão dos Moribundos, 1982


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Das contradições do dinheiro

"Ainda que seja covarde, é valente aquele que pode comprar a valentia"

Karl Marx, Manuscritos Econômico-filosóficos, 1844


sábado, 2 de novembro de 2013

Escolhas

Angústia despolitizada.
Perpassa classe, cor, gênero e o que mais que o valha.
A minha condição humana. A sua. A nossa.
Variações mais ou menos agudas de dramas comuns.
Escolher uma coisa é sempre abrir mão de outra. E nenhum caminho leva a felicidade plena.
Pessimista?
Não, não, sou bem otimista. Porque se fosse só isso, estava bom.