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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Brecha

"Sempre existe uma brecha entre a norma e o vivido, o dogma e a crença, as normas e as condutas. Nessa brecha, se insinuam as reformulações, os desvios, as apropriações, as resistências".

Roger Chartier, A História ou a Leitura do Tempo (2007, p. 47)

sábado, 5 de março de 2016

"Às noites, tornava a sentir a velha vontade de me matar. Uma vontade quase lírica, sem possibilidades de realização, decerto, mas que voltava a me tomar longas horas nas insônias; via o veneno no frasco, imaginava o golpe seco do punhal, depois a felicidade de ir me extinguindo, de sentir a vida fugindo devagarinho, como o sangue a pingar do pulso navalhado.
Para mim, pobre pequena, que na idade dos sonhos e das esperanças não sentia mais esperanças nem sonhos e me via num desespero gratuito, inteiramente só no mundo imenso, sem solução e sem destino, a morte parecia o porto, a tranquilidade, o limite. O que é difícil, entretanto, é me explicar direito, porque o tema já traz em si uma carga centenária de banalidade, é uma espécie de lugar-comum da tristeza humana, literária ou vivida.
Na morte voluntária, o que sempre me apavorou, naquele tempo como hoje, é essa tragicômica publicidade que a reveste. E a mim que sempre tive tão profunda aquela necessidade da morte, sempre me inspirou horror a ideia de dar também espetáculo para a plateia que fica, do odioso sensacionalismo do gesto, que é como um impudor póstumo.
E porque não me esquecia disso, cuidava então nas mortes discretas [...]

Rachel de Queiroz - As Três Marias [1939]


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"E eu, eu já não tinha sonhos. Conhecer o quê? Homens se debatendo. Não, já não sonho com isso. Talvez eu queira ainda viver - viver certas horas. Para o mais, já gastei minhas curiosidades todas, desiludi-me depressa."

Maria Augusta
Rachel de Queiroz, 1939, As três Marias

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Notícia de jornal

Tenho medo de ficar muito velha e nunca conseguir morrer. Tenho conhecido alguns idosos assim e isso me assusta, mas talvez meu pesadelo seja pior que a realidade empírica que observo.
Sempre que leio a notícia sobre a morte de alguém famoso no jornal, por um segundo, sinto um certo alívio - o mundo continua no lugar, as pessoas em algum momento morrem, você não viverá para sempre -.
Reconheço que é um pensamento pouco racional, mas me é frequente.


sábado, 9 de janeiro de 2016

Limiar

No limiar dos trinta
a vida está seca como a soleira
da porta
que se abre entreaberta e se fecha entrefechada
uma vida digna honesta dura séria ereta indo adiante
e eu parada no limiar
da porta
olhando
o que foi o que virá o que
Se assustando com os mesmos sustos: quanta gente no meu bairro cidade país planeta que nunca conhecerei!
Se deleitando com os mesmos segredos: só.
Me perdendo no transbordamento dos sentidos.

Como estarei daqui a dez anos?
Mais seca ou mais úmida?
Em ambos os solos brotam plantas, desde que.



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Epigrama n° 2 - Cecília Meireles

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Cecília Meireles - Viagem - 1938


domingo, 17 de maio de 2015


Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais.




"O amante", Marguerite Duras



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Certa vez

                                                 Para Roberta

Vez por outra
ela busca
a garota
de outrora

vez por outra
assim
de mim
vai embora.

Outra vez
graças a Deus
ela volta.

Retorna
fortalecida.

Com um segredo:

novamente
a vida
tem vez
nela.

Cada vez,
mulher crescida, 
se encontra 
mais bela.


domingo, 24 de abril de 2011

Primeiro cabelo branco

É um cabelo grosso e acinzentando, como deveria ser, bem no meio da cabeça.
Olho bem no espelho diante do susto, procuro mais algum sinal, vejo então que os olhos já tem duas ruguinhas de cada lado. Sinto um desespero e um certo orgulho diante dessas evidências, e penso: terei que enfrentar essa situação tão séria e banal como todo mundo, universalmente, a enfrenta.
E sei que para as mulheres a questão é ainda mais complexa...
Tento me imaginar daqui a dez anos, quando todos esses pequenos sinais estarão mais acentuados. Vem à minha mente a imagem de outras mulheres que conheço, lindas, bem mais velhas do que eu. Também para elas, e para todas as outras, isso sem dúvida, em algum momento, foi uma questão permeada por certa angústia diante de um espelho bem iluminado. E, no entanto, estão aí, como se sempre tivessem tido 50 anos.

A gente envelhece todos os dias.

De pouquinho em pouquinho.

E isso, na verdade, é bom.

Bom porque não é de repente, não é que um dia você acorda e sua cara já não é mais a mesma. Bom, porque ela nunca foi a mesma. Criança, adolescente, jovenzinha, mulher feita, mulher madura, uma senhora, uma velhinha. Todos os dias, um rosto diferente. Desde sempre.

Bom porque o tempo, ao invés de ficar parado, anda. E ao invés de fazer isso silenciosamente, vai nos mostrando "estou andando e, olha, você está mudando junto comigo", "caminhamos lado a lado, todos os dias", ele vai explicando pra gente. Assim, ele permite que a gente também siga nessa linha, só que vivendo.

E a vida, por mais dura que possa nos parecer às vezes, é a única oportunidade segura que nós temos de pensar, sentir, agir, amar e mudar. E isso, em si e sem mais explicações, só pode ser bom.