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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Traduzir-se (Ferreira Gullar, Na vertigem do dia, 1980)

 

Uma parte de mim
é todo mundo;
Outra parte é ninguém;
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
Outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
Outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
Outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
Outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
Outra parte
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
 - Que é uma questão
de vida ou morte -
Será arte?


quarta-feira, 22 de abril de 2020

"O mundo subjacente: um conjunto de relatos, recordações, imagens, cheiros, sonhos, aversões, inquietudes, posições corporais e espirituais, maneiras de ser e pensar que herdamos ao mesmo tempo que o nome e o dia do nosso nascimento. Um país obscuro ou luminoso, uma terra provedora ou dolorosa feita de lendas familiares peneiradas pela memória social e pela história nacional, da qual podemos ter vontade de nos emancipar mais tarde, mas que, até lá, são a própria intimidade."


Emmanuelle Loyer, Lévi-Strauss, 2018 (p.25)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Insônia

A chuva cai forte, mas não é capaz de acalmar meu sangue que corre rápido. como corre rápido. fico pensando, desde quando? quem sabe esse pensamento é bom pra fazer dormir. corre assim desde quando eu ouvia os pingos fortes de chuva pela janela da casa da minha avó, e torcia para cair um dilúvio pois, se assim fosse, o pequeno córrego que cruzava a rua poderia ter peixes. não durmo. desde quando eu já madrugava para ir para escola, isso já maior, quando já morava com meu pai, e já que tinha que acordar cedo, já praticamente não dormia, gastava cartelas e cartelas de pilha fazendo aquele discman rodar, já que. que perturbada que eu era. desde quando? desde quando eu subia no último andar do prédio e pensava o que aconteceria se eu caísse? mas eu sabia que não ia cair, eu sempre soube. mas o sangue correndo rápido. desde quando eu confrontei o cara do sebo dizendo eu não tenho nenhum interesse por pequeno príncipe ou fernão capelo gaivota. eu quero ler Virginia Woolf. eu já sofria, sabe-se deus porque. e o sangue já corria assim. e eu buscava algum consolo. o livro do desassossego. foi o que o psiquiatra me receitou hoje. vá ler o livro do desassossego. e eu disse, eu já li. e ele ficou assim, meio sem saber o que dizer. e eu disse, e acho que se fernando pessoa tivesse tomado anti-depressivo não teria feito aquela obra. ele teria sofrido menos. disse meio ressentida. não sei se chegou a ser uma piada. acho que eu tentei ser simpática. e o psiquiatra ficou me olhando, meio sem saber, já abrindo a porta porque psiquiatra do convênio sempre tem sala cheia. e nada do meu sono, esses pensamentos não estão bons para dormir.  pode um sofrer valer a pena? não se trata de utilidade, se trata de condição. quem tem assim o sangue correndo rápido, sofre, chora e ainda não dorme. aceite-se. desde quando eu olhava a porta de madeira, de novo volto para a casa da minha avó, outro pensamento, eu olhava a porta de madeira do banheiro, de noite, e via um desenho lá. e eu achava que era uma santinha, e ela me protegia. mas eu tentava entender, se deus tem uma mão para cada criança, quantas mãos ele teria? não, aquilo não fazia tanto sentido, mas era melhor não desconfiar. e isso era quando eu não conseguia dormir. a minha bisinha  me ensinou a rezar pra dormir "com deus me deito, com deus me levanto, com a graça de deus o espírito santo". já tentei hoje várias vezes, não funciona. desde quando eu escrevia, escrevia, escrevia loucamente, já no ensino médio, e eu guardei todos esses escritos perturbados e quentes, e anteontem abri essa caixa cheia de pastas cheias de escritos e meu sangue correndo rápido, e o coração batendo bum bum bum, porque tanto? há quanto tempo tanto? me sinto cansada, queria dormir, e aqueles escritos desenhados em letra rápida, é um passado que eu quis guardar, mas ele vive aqui, correndo rápido meu sangue de madrugada. desde quando?

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal

Você conhece aquele ditado? -
foi o que o pai disse ao telefone -
"em árvore frondosa não nascem bons frutos".
A árvore sou eu, filhas.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Eu confesso, tu confessas, nós confessamos


“confessam-se os crimes, os pecados, os pensamentos e os desejos, confessam-se passado e sonhos, confessa-se a infância; confessam-se as próprias doenças e misérias; emprega-se a maior exatidão para dizer o mais difícil de ser dito; confessa-se em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles a quem se ama; fazem-se a si próprios, no prazer e na dor, confissões impossíveis de confiar a outrem, com o que se produzem livros. Confessa-se – ou se é forçado a confessar. [...] O homem, no Ocidente, tornou-se um animal confidente”

 (Foucault, 1976, História da Sexualidade, capítulo 3). 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Como amar uma mãe (aprenda com Barthes)

28.

"Sozinho no apartamento em que ela há pouco tinha morrido, eu ia assim olhando sob a lâmpada, uma a uma, essas fotos de minha mãe, pouco a pouco remontando com ela o tempo, procurando a verdade da face que eu tinha amado. E a descobri."

29.

[...]

"Durante sua doença, eu cuidava dela, estendia-lhe a tigela de chá de que ela gostava, porque nela podia beber de maneira mais cômoda do que em uma xícara, ela se tornara minha pequena filha, confundindo-se, para mim, com a criança essencial que ela era em sua primeira foto. Em Brecht, por uma inversão que outrora eu admirava muito, é o filho que educa (politicamente) a mãe; contudo, jamais eduquei minha mãe; jamais a converti ao que quer que fosse; em certo sentido, jamais lhe "falei", jamais "discorri" diante dela, para ela; pensávamos, sem nos dizer, que a insignificância ligeira da linguagem, a suspensão das imagens, devia ser o espaço mesmo do amor, sua música."

Roland Barthes - A câmara clara [1980]

terça-feira, 4 de julho de 2017

Verdades e segredos

potencialidades
dor
coragem
Por exemplo, é descobrir que minha avó foi babá e ninguém me contou.
é descobrir
vergonha
criatividade
Baixada Fluminense
é sentir prazer sozinha de ser quem se é
debaixo do cobertor
muitos pensamentos
muitos corpos
potencialidades enquanto há vida
fotografias

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Devaneio



Cavalos selvagens
correm em mim
em um vale chamado Segredo.


sábado, 15 de outubro de 2016

Envelhecimento

Nos meus melhores sonhos, e nos piores, muito de mim me sinto em Clara.
É muito do que desejo, é muito do que temo.
Com contradições tão doídas que me custa fazer uma reflexão límpida sobre tanto.
Fica tudo emaranhado, então.
Claramente Clara, ainda que sem clareza, por alguns momentos.

Resultado de imagem para clara sonia braga

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/10/1820800-o-fim-da-utopia-hippie-em-aquarius.shtml

domingo, 31 de julho de 2016

órfã

é um dilaceramento
é um chão de fundo oco, que pode se quebrar
é um medo constante de se tornar inviável
é um vazio que não se preenche, apenas se esquece.

mesmo tendo mãe e pai
tenho não tenho. tenho não tenho.
tenho irmã. tenho filho. tenho até marido. estou tão sozinha esperando o dia que ficarei sozinha, insuportável, quero não quero. quero não quero. morro vivo morro.
vivo.



quinta-feira, 21 de abril de 2016

dor de cabeça

durmo mal
estou engasgada
me sinto enjoada
quieta
fechada
encurralada
trabalho feito louca mas sempre tenho culpa, não sei de onde vem, não tenho tempo nem dinheiro pra fazer psicanalise, vou fazer uma tese de bosta, um casamento..., tenho raiva das pessoas, irritações, como elas se suportam? eu nao.
nao estou bem.
um lixo
consegui algumas coisas outras não.
as que consegui me mortificam por ter que trabalhar muito, as que não me maltratam por me sentir incapaz
preciso me libertar
não sei onde é a saída
a página em branco, a letra preta, mas não acho.

algumas pretensões que eu tinha já não tenho mais, tenho outras no lugar
medíocres
tudo uma grande bosta, estou de saco cheio, meias palavras, meios olhares, sei, sei, claro, conheço, sim, sim, claro, fala na cara filho da puta
medíocre
como me maltrato
escolhas do destino
esse é o seu, conforme-se
ou não

as pessoas também são loucas
mas elas falam, elas têm voz
eu também tenho voz, pelo menos não sou assim chata, sou chata, não sou chata.

mais respeito por favor.
minha dor também doi
minha humildade é bonita, nao preciso ser melhor do que ninguem, e quantas vezes tenho vontade de pedir desculpas.
E tenho vontade de fumar.
Agora: não sei se fumo ou se só curto minha dor de cabeça.

Que merda
Estou desanimada.




sábado, 9 de janeiro de 2016

Limiar

No limiar dos trinta
a vida está seca como a soleira
da porta
que se abre entreaberta e se fecha entrefechada
uma vida digna honesta dura séria ereta indo adiante
e eu parada no limiar
da porta
olhando
o que foi o que virá o que
Se assustando com os mesmos sustos: quanta gente no meu bairro cidade país planeta que nunca conhecerei!
Se deleitando com os mesmos segredos: só.
Me perdendo no transbordamento dos sentidos.

Como estarei daqui a dez anos?
Mais seca ou mais úmida?
Em ambos os solos brotam plantas, desde que.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Caxambu

Dez anos se passaram
O cigarro voltou
O humor solitário
um andar esperançoso e soturno
Passo em frente ao calçadão
Dezenas de amigos conversam
Dez anos se passaram
Eu novamente não paro
Sigo para o quarto
Gosto da minha companhia
Não preciso tanto de gente, talvez, como os outros, talvez.
Dez anos se passaram e ainda não sei de quase nada.
Aquela menina ainda mora aqui, morará sempre, sinto orgulho dela, firme.
Mas existe agora uma mulher, a mesma, eu mesma, prazer.

domingo, 26 de julho de 2015

Tudo depende do que você quer saber

Do ar tomado antes de tomar certas decisões,
e das frustrações, depois
(elas sempre virão)
Do besta, da vida,
no mesmo tempo, no mesmo agora, no mesmo nada que eu, indivídua, vivo e respiro e tento achar
utopias
- muito bonito seu papo sobre utopias, gato, mas será útil para agora? -
será o caos
será a sobrevivência
nascer, copular, morrer
é assim que o inteligente, citando outro mais que ele, recita, em vão.

Quero as migalhas da vida.

Quero tudo aquilo que poucos

E meu momento vai chegando, uma vida investindo em olhar para o nada.
o desperdício.
- acontece também com vidas inteligente, a classe média também se desperdiça, baby.

Vamos.
Vamos pelos menos correr, respirar, cansar, brigar, lutar, sobreviver, comer, cagar, xingar, odiar, fofocar, pelo menos.

Será que meu limite chegou? sinto que está perto, mas é difícil saber sua hora, e quanta dor trará consigo - o horror, ou não, a libertação.

Destino - preso, livre, preso, livre, preso, livre, preso, livre
não se trata disso, meu bem.
é preciso estudar psicanálise, meu bem.

E encarar as bordas, seja forte, como sempre.





domingo, 15 de março de 2015

História de Família

Minha história de família,
dói como uma ferida aberta,
mas não sangra mais.

Minha história é minha e só minha,
e também de minha irmã.

Tem afetos, amores, traições, abandonos, choros e loucuras.
Tem mãe, pai, cunhada, avó paterna, duas filhas.
E muitas instabilidades.

Minha história de família
à tona outra vez.
Não sei se a enfrento ou se me escondo
diante de tanto revés.

É o pai que amou a cunhada e abandonou a mãe que ficou triste quase louca, e as filhas criadas pela avó que cuidou e amou, não sem dó. É um eu que se fez assim um pouco torto e tenta ser firme mas também acha que pode ficar tonto. É muita coisa incerta e doída mas que afinal com um pouco de sensibilidade e instinto, quem sabe é que não vira poesia.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pelo menos 7 vidas

Quem me dera poder ter outras vidas,
ao invés de sujeitar-me a essa limitação medonha.

Em uma das minhas vidas, aos 60 anos, doaria toda a minha herança (que eu teria então, claro) aos moradores de rua que vivem perto da Estação da Luz e me mudaria poderosa para uma comunidade hippie no sul da Bahia, sambando na cara da sociedade.

Em outra vida, eu seria uma grande médica, talvez gastroenterologista. Engajada com ideais até meio antiquados de esquerda, eu teria no Che Guevara a minha grande inspiração, chocando meus pacientes de Moema com sua foto em pleno consultório decorado em tons pasteis.

Na terceira vida, eu seria um empresário de sucesso e exerceria todo o meu poder de líder e gestor. Desse modo (e não de outro), eu seria respeitado e amado e também muito odiado por todos os meus subordinados.

Já em outra vida, eu seria uma escritora decadente e escreveria tudo tudo tudo o que eu pensasse, inclusive como meu cotovelo pode ficar acinzentado minha unha sem corte meu sovaco peludo e como isso é importante para a humanidade, sim,o é. Amarga, me suicidaria ao final, em um rio, plagiando Virginia Woolf. Mas pensando bem, uma morte no Rio Pinheiros seria para lá de original, garantindo inclusive notinha de capa na Folha de São Paulo.

Na quinta vida eu casaria com um homem lindo, e usaria vestidos caríssimos, e provocaria inveja em todas as minhas colegas de escola ao protagonizar dezenas de capas de revista, sempre com a barriga malhada de fora. Eu seria brega, eu seria cafona, eu seria ridícula.

Numa outra vida.

Mas não.
Só tenho está.
Estas mãos.
Essas pequenas rugas já na testa.
Esses traumas e medos.
E um bocado de mediocridade.
Também um pouquinho de feliz, afinal.

Oh vida minha, minha única amada vida, seja! Já que não podemos ser outra.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém escrever,
A verdadeira história da Humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, é só o mundo;
O  que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade - o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza - o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sôbre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão -
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

Álvaro de Campos
7-12-1933

domingo, 21 de setembro de 2014

AUTORRETRATO FALADO

Venho de uma Cuiabá garimpo e ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha,
onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do chão, pessoas
humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto como que desonrado e fujo para o
Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei - pelo
que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros




sábado, 20 de setembro de 2014

11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não me aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva, etc. etc.

Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros



Me repito

Ler Clarice Lispector é como um perdão.