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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Dois e dois: quatro (De dentro da noite veloz, 1975, Ferreira Gullar)

 


Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 
Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena 
como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 
Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 
E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 
– sei que dois e dois são quatro 
sei que a vida vale a pena 
mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.

domingo, 31 de julho de 2016

órfã

é um dilaceramento
é um chão de fundo oco, que pode se quebrar
é um medo constante de se tornar inviável
é um vazio que não se preenche, apenas se esquece.

mesmo tendo mãe e pai
tenho não tenho. tenho não tenho.
tenho irmã. tenho filho. tenho até marido. estou tão sozinha esperando o dia que ficarei sozinha, insuportável, quero não quero. quero não quero. morro vivo morro.
vivo.



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Pensamento bobinho nas nuvens

A vida da gente, talvez, seja como um rio visto sob diferentes perspectivas.

Visto da margem, dá a impressão que o rio está indo seguro, com tanta água, rumo a algum lugar certeiro.
Provavelmente o mar, como aprendemos na escola.

Do céu, vemos que não.
Olhando pela janelinha do avião, oh rio, quantas curvas inúteis, serpenteia um pouquinho melancólico.

Mas é essa a sua verdadeira natureza: errante, bonito, espontâneo e vital.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Pelo menos 7 vidas

Quem me dera poder ter outras vidas,
ao invés de sujeitar-me a essa limitação medonha.

Em uma das minhas vidas, aos 60 anos, doaria toda a minha herança (que eu teria então, claro) aos moradores de rua que vivem perto da Estação da Luz e me mudaria poderosa para uma comunidade hippie no sul da Bahia, sambando na cara da sociedade.

Em outra vida, eu seria uma grande médica, talvez gastroenterologista. Engajada com ideais até meio antiquados de esquerda, eu teria no Che Guevara a minha grande inspiração, chocando meus pacientes de Moema com sua foto em pleno consultório decorado em tons pasteis.

Na terceira vida, eu seria um empresário de sucesso e exerceria todo o meu poder de líder e gestor. Desse modo (e não de outro), eu seria respeitado e amado e também muito odiado por todos os meus subordinados.

Já em outra vida, eu seria uma escritora decadente e escreveria tudo tudo tudo o que eu pensasse, inclusive como meu cotovelo pode ficar acinzentado minha unha sem corte meu sovaco peludo e como isso é importante para a humanidade, sim,o é. Amarga, me suicidaria ao final, em um rio, plagiando Virginia Woolf. Mas pensando bem, uma morte no Rio Pinheiros seria para lá de original, garantindo inclusive notinha de capa na Folha de São Paulo.

Na quinta vida eu casaria com um homem lindo, e usaria vestidos caríssimos, e provocaria inveja em todas as minhas colegas de escola ao protagonizar dezenas de capas de revista, sempre com a barriga malhada de fora. Eu seria brega, eu seria cafona, eu seria ridícula.

Numa outra vida.

Mas não.
Só tenho está.
Estas mãos.
Essas pequenas rugas já na testa.
Esses traumas e medos.
E um bocado de mediocridade.
Também um pouquinho de feliz, afinal.

Oh vida minha, minha única amada vida, seja! Já que não podemos ser outra.