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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Traduzir-se (Ferreira Gullar, Na vertigem do dia, 1980)

 

Uma parte de mim
é todo mundo;
Outra parte é ninguém;
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
Outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
Outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
Outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
Outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
Outra parte
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
 - Que é uma questão
de vida ou morte -
Será arte?


domingo, 26 de maio de 2019

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

[...]
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo, 1940

sábado, 23 de março de 2019

Grande Desejo (Adélia Prado)

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atirar os restos.
Quando dói, grito ao,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever o livro com meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Adélia Prado, Bagagem, 1976

terça-feira, 5 de março de 2019

Casamento (Adélia Prado)

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a descamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Adélia Prado (MG, 1935-)

sábado, 10 de junho de 2017

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

[...]

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!

[Paulicéia Desvaira, 1922]
[Mário de Andrade]

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira, 1939, Lira dos Cinquent'anos


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sabiá com trevas

IX.
O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

Manoel de Barros


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
crê que não o alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira - Belo Belo

Trecho de "Na Rua Mário de Andrade"

[...]

Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele - ó Mário,
era o que eu ia te falar

É preciso flanar em ruas
- os passos levando sempre
para nenhum lugar

E Mário me diz: - Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar

[...]

Manoel de Barros

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Presepe - Manuel Bandeira

Chorava o menino.

Para a mãe, coitada,
Jesus pequenito,
De qualquer maneira
(Mães o sabem...), era
Das entranhas dela
O fruto bendito.
José, seu marido
Ah esse aceitava,
Carpinteiro simples,
O que Deus mandava.
Conhecia o filho
A que vinha neste
Mundo tão bonito,
Tão mal habitado?
Não que ele temesse
O humano flagício:
O fel e o vinagre,
Escárnios, açoites,
O lenho nos ombros,
A lança na ilharga,
A morte na cruz.
Mais do que tudo isso
O amedrontaria
A dor de ser homem,
O horror de ser homem,
- Esse bicho estranho
Que desarrazoa
Muito presumido
De sua razão;
- Esse bicho estranho
Que se agita em vão;
Que tudo deseja
Sabendo que tudo
É o mesmo que nada;
- Esse bicho estranho
Que tortura os que ama;
Que até mata, estúpido,
Ao seu semelhante
No ilusivo intento
De fazer o bem!
Os anjos cantavam
Que o menino viera
Para redimir
O homem - essa absurda
Imagem de Deus!
Mas o jumentinho,
Tão manso e calado
Naquele inefável,
Divino momento,
Ele bem sabia
Que inútil seria
Todo o sofrimento
No Sinédrio, no horto,
Nos cravos da cruz;
Que inútil seria
O fel e vinagre
Do bestial flagício;
Ele bem sabia
Que seria inútil
O maior milagre;
Que inútil seria
Todo sacrifício...


Manuel Bandeira, livro Belo, Belo - 1949