"O mundo subjacente: um conjunto de relatos, recordações, imagens, cheiros, sonhos, aversões, inquietudes, posições corporais e espirituais, maneiras de ser e pensar que herdamos ao mesmo tempo que o nome e o dia do nosso nascimento. Um país obscuro ou luminoso, uma terra provedora ou dolorosa feita de lendas familiares peneiradas pela memória social e pela história nacional, da qual podemos ter vontade de nos emancipar mais tarde, mas que, até lá, são a própria intimidade."
Emmanuelle Loyer, Lévi-Strauss, 2018 (p.25)
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quarta-feira, 22 de abril de 2020
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Insônia
A chuva cai forte, mas não é capaz de acalmar meu sangue que corre rápido. como corre rápido. fico pensando, desde quando? quem sabe esse pensamento é bom pra fazer dormir. corre assim desde quando eu ouvia os pingos fortes de chuva pela janela da casa da minha avó, e torcia para cair um dilúvio pois, se assim fosse, o pequeno córrego que cruzava a rua poderia ter peixes. não durmo. desde quando eu já madrugava para ir para escola, isso já maior, quando já morava com meu pai, e já que tinha que acordar cedo, já praticamente não dormia, gastava cartelas e cartelas de pilha fazendo aquele discman rodar, já que. que perturbada que eu era. desde quando? desde quando eu subia no último andar do prédio e pensava o que aconteceria se eu caísse? mas eu sabia que não ia cair, eu sempre soube. mas o sangue correndo rápido. desde quando eu confrontei o cara do sebo dizendo eu não tenho nenhum interesse por pequeno príncipe ou fernão capelo gaivota. eu quero ler Virginia Woolf. eu já sofria, sabe-se deus porque. e o sangue já corria assim. e eu buscava algum consolo. o livro do desassossego. foi o que o psiquiatra me receitou hoje. vá ler o livro do desassossego. e eu disse, eu já li. e ele ficou assim, meio sem saber o que dizer. e eu disse, e acho que se fernando pessoa tivesse tomado anti-depressivo não teria feito aquela obra. ele teria sofrido menos. disse meio ressentida. não sei se chegou a ser uma piada. acho que eu tentei ser simpática. e o psiquiatra ficou me olhando, meio sem saber, já abrindo a porta porque psiquiatra do convênio sempre tem sala cheia. e nada do meu sono, esses pensamentos não estão bons para dormir. pode um sofrer valer a pena? não se trata de utilidade, se trata de condição. quem tem assim o sangue correndo rápido, sofre, chora e ainda não dorme. aceite-se. desde quando eu olhava a porta de madeira, de novo volto para a casa da minha avó, outro pensamento, eu olhava a porta de madeira do banheiro, de noite, e via um desenho lá. e eu achava que era uma santinha, e ela me protegia. mas eu tentava entender, se deus tem uma mão para cada criança, quantas mãos ele teria? não, aquilo não fazia tanto sentido, mas era melhor não desconfiar. e isso era quando eu não conseguia dormir. a minha bisinha me ensinou a rezar pra dormir "com deus me deito, com deus me levanto, com a graça de deus o espírito santo". já tentei hoje várias vezes, não funciona. desde quando eu escrevia, escrevia, escrevia loucamente, já no ensino médio, e eu guardei todos esses escritos perturbados e quentes, e anteontem abri essa caixa cheia de pastas cheias de escritos e meu sangue correndo rápido, e o coração batendo bum bum bum, porque tanto? há quanto tempo tanto? me sinto cansada, queria dormir, e aqueles escritos desenhados em letra rápida, é um passado que eu quis guardar, mas ele vive aqui, correndo rápido meu sangue de madrugada. desde quando?
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017
- Guria, guria, muria, leria, seria..., cantava o homem voltado para Joana. Que é que tu vais ser quando cresceres e fores uma moça e tudo?
- Quanto ao tudo ela não tem a menor ideia, meu caro, declarava o pai, mas se ela não se zangar te conto seus projetos. Me disse que quando crescer vai ser herói...
O homem riu, riu, riu. Parou de repente, segurou o queixo de Joana e enquanto ele segurava ela não podia mastigar:
- Não vai chorar pelo segredo revelado, não é, guria?
Perto do Coração Selvagem, 1943, C.L.
- Quanto ao tudo ela não tem a menor ideia, meu caro, declarava o pai, mas se ela não se zangar te conto seus projetos. Me disse que quando crescer vai ser herói...
O homem riu, riu, riu. Parou de repente, segurou o queixo de Joana e enquanto ele segurava ela não podia mastigar:
- Não vai chorar pelo segredo revelado, não é, guria?
Perto do Coração Selvagem, 1943, C.L.
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segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Eu confesso, tu confessas, nós confessamos
“confessam-se os crimes, os pecados, os pensamentos e os desejos, confessam-se passado e sonhos, confessa-se a infância; confessam-se as próprias doenças e misérias; emprega-se a maior exatidão para dizer o mais difícil de ser dito; confessa-se em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles a quem se ama; fazem-se a si próprios, no prazer e na dor, confissões impossíveis de confiar a outrem, com o que se produzem livros. Confessa-se – ou se é forçado a confessar. [...] O homem, no Ocidente, tornou-se um animal confidente”
(Foucault, 1976, História da Sexualidade, capítulo
3).
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quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Bildungsroman
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Coming of Age in São Paulo
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Como amar uma mãe (aprenda com Barthes)
28.
"Sozinho no apartamento em que ela há pouco tinha morrido, eu ia assim olhando sob a lâmpada, uma a uma, essas fotos de minha mãe, pouco a pouco remontando com ela o tempo, procurando a verdade da face que eu tinha amado. E a descobri."
29.
[...]
"Durante sua doença, eu cuidava dela, estendia-lhe a tigela de chá de que ela gostava, porque nela podia beber de maneira mais cômoda do que em uma xícara, ela se tornara minha pequena filha, confundindo-se, para mim, com a criança essencial que ela era em sua primeira foto. Em Brecht, por uma inversão que outrora eu admirava muito, é o filho que educa (politicamente) a mãe; contudo, jamais eduquei minha mãe; jamais a converti ao que quer que fosse; em certo sentido, jamais lhe "falei", jamais "discorri" diante dela, para ela; pensávamos, sem nos dizer, que a insignificância ligeira da linguagem, a suspensão das imagens, devia ser o espaço mesmo do amor, sua música."
Roland Barthes - A câmara clara [1980]
"Sozinho no apartamento em que ela há pouco tinha morrido, eu ia assim olhando sob a lâmpada, uma a uma, essas fotos de minha mãe, pouco a pouco remontando com ela o tempo, procurando a verdade da face que eu tinha amado. E a descobri."
29.
[...]
"Durante sua doença, eu cuidava dela, estendia-lhe a tigela de chá de que ela gostava, porque nela podia beber de maneira mais cômoda do que em uma xícara, ela se tornara minha pequena filha, confundindo-se, para mim, com a criança essencial que ela era em sua primeira foto. Em Brecht, por uma inversão que outrora eu admirava muito, é o filho que educa (politicamente) a mãe; contudo, jamais eduquei minha mãe; jamais a converti ao que quer que fosse; em certo sentido, jamais lhe "falei", jamais "discorri" diante dela, para ela; pensávamos, sem nos dizer, que a insignificância ligeira da linguagem, a suspensão das imagens, devia ser o espaço mesmo do amor, sua música."
Roland Barthes - A câmara clara [1980]
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terça-feira, 29 de agosto de 2017
William Klein

William Klein (EUA, 1928)
"a leitura do punctum é ao mesmo tempo curta e ativa, encolhida como uma fera" Barthes - câmara clara, 1980
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sexta-feira, 7 de abril de 2017
O Ateneu - o início e o fim
"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."
"O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto se pode gerar de monotonia do trabalho como da ociosidade"
"Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas"
Rio, Janeiro-Março de 1888.
Raul Pompéia (1863-1895)
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Pecado Original
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém escrever,
A verdadeira história da Humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, é só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade - o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza - o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sôbre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão -
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Álvaro de Campos
7-12-1933
Será essa, se alguém escrever,
A verdadeira história da Humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, é só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade - o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza - o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sôbre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão -
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Álvaro de Campos
7-12-1933
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sexta-feira, 6 de junho de 2014
Céu
A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
crê que não o alcança,
Quando o tem na mão.
Manuel Bandeira - Belo Belo
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
crê que não o alcança,
Quando o tem na mão.
Manuel Bandeira - Belo Belo
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