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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
crê que não o alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira - Belo Belo

Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo da noite.

Belo belo belo
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra dá só com trabalho.

Ás  dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira - Lira dos Cinquent'anos


Trecho de "Na Rua Mário de Andrade"

[...]

Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele - ó Mário,
era o que eu ia te falar

É preciso flanar em ruas
- os passos levando sempre
para nenhum lugar

E Mário me diz: - Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar

[...]

Manoel de Barros

José (Drummond)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora José?

[...]

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Decoro

Eles a querem.
Ela, decente, sorri.
Quanta decência.
Como ela é decente.
 que ainda está em jogo.
o jogo.
ridículo
- é o único que ela tem -
mas ela gosta, é boazinha, é indecente, sabe se comportar.




domingo, 4 de maio de 2014

Destino

então era isso, deus?
quem joga os dados.
então não éramos dois.
finda a dúvida
e não há mais pra  depois.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Noite de Natal

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

Ana Cristina César

segunda-feira, 24 de março de 2014

Vida alheia

Edu-dudu-ardo
O conheci na esquina
Sem uma perna, os braços no lugar, a cabeça grande e o coração quase caindo.
Morreu sem ter morrido
E ressuscitou.
Com a ajuda de amigos.
Agora, quem saberá ao certo, foi acolhido por anjos
Franciscanos, com pombas nos ombros e coroas na cabeça.
Desde já, agradeço.



Obra de arte

O principal problema do poeta
é acreditar que suas emoções são tão importantes.

Silêncio!
Temos que ouvir as emoções do poeta.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Recuperação da Adolescência

é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço

(Ana Cristina César)