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segunda-feira, 24 de março de 2014

Vida alheia

Edu-dudu-ardo
O conheci na esquina
Sem uma perna, os braços no lugar, a cabeça grande e o coração quase caindo.
Morreu sem ter morrido
E ressuscitou.
Com a ajuda de amigos.
Agora, quem saberá ao certo, foi acolhido por anjos
Franciscanos, com pombas nos ombros e coroas na cabeça.
Desde já, agradeço.



Obra de arte

O principal problema do poeta
é acreditar que suas emoções são tão importantes.

Silêncio!
Temos que ouvir as emoções do poeta.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Recuperação da Adolescência

é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço

(Ana Cristina César)

sábado, 2 de novembro de 2013

Escolhas

Angústia despolitizada.
Perpassa classe, cor, gênero e o que mais que o valha.
A minha condição humana. A sua. A nossa.
Variações mais ou menos agudas de dramas comuns.
Escolher uma coisa é sempre abrir mão de outra. E nenhum caminho leva a felicidade plena.
Pessimista?
Não, não, sou bem otimista. Porque se fosse só isso, estava bom.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Normalidade irritatória

O que me falta é paciência.
Irritação, sobra.
Estou doente?
Maníacodepressivabipolarhiperativaansiosaqualquercoisaqueovalhaquetechamemdelouca
Nada, nada.
Estou normal.
Mais normal do que nunca.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Genéricas CL

Organizar o quarto, lençóis limpos, abajur aceso. Deito sobre a cama com as costas no travesseiro contra a parede e pego o livro. A mediocridade esclarecida de Lóri me conforta. Como me conforta! Sinto uma identificação dupla, com a personagem e com a escritora e, assim, sinto-me mais próxima de mim. Estranha e tosca sensação.
Penso então que ela não é só minha.
O número explosivo de teses e dissertações sobre Clarice Lispector alimentam essa hipótese. Fora as centenas de livros escritos que copiam o seu estilo.
Tudo ruim.
Não importa.
O que importa é nos salvar, nós, genéricas.
Dentro de cada gaiola, encontrar um pouco de poesia e conforto intelectual.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mínima 9

"O homem sábio não persegue o que é agradável, mas a ausência de dor"

Aristóteles, Ética a Nicômaco apud Schopenhauer, A arte de ser feliz

Lisbon Revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

[...]
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...


Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...


Álvaro de Campos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Estava na biblioteca, as pessoas passam, meu olhar desatento as focaliza e retorna ao livro. Em minha direção vem um homem muito alto. Olhei, como sempre. Nosso olhar se cruzou em susto. Ele era negro. Não "moreno" que passa desapercebido em nossa escala cromática. Ele era negro preto retinto. Olhar para ele, em susto, imediatamente me causou um constrangimento, eu senti vergonha e logo pensei: se eu fosse esse cara eu ia mandar todo mundo pra puta que pariu.
20/07/2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mari (taca)

“Morreu o periquito
A gaiola vazia
Esconde um grito”
Leminski

Mari morreu durante a noite.
Quando acordamos, estava morta.
Fiquei chocada.
Embora eu já soubesse que a qualquer momento isso iria ocorrer, os três dias que ela ficou aqui em casa, agonizando, foram significativos pra mim.

Acho que os homens, e as mulheres, são sobretudo uns bobos.

Mari chegou na sexta, acidentalmente. Apareceu no chão do nosso quarto com a pata muito machucada.
Rapidamente consegui uma gaiola com a vizinha e a hospedei, com água, frutas e até sementes (também emprestadas) em cima da geladeira, onde ela ficaria ventilada e minimamente tranquila.

No sábado acordei e imediatamente fui ver se ela havia sobrevivido. Sim! Estava lá! Medrosa, arisca, desconfiada, sofrida, linda. Verde, com diversos tons, e os olhinhos negros.
Ah Mari! Se eu pudesse te ajudar de fato! E se você pudesse compreender que eu não quero o seu mal...
Quando sai à rua, a passear com os cachorros, que mundo novo se abria pra mim ao buscar seus companheiros: um bairro repleto de árvores altas e volumosas, um céu cheio de nuvens, e dezenas de aves a cruzar barulhentas essa exótica paisagem urbana.

Sempre tive algum interesse por pássaros.
Sempre fui radicalmente contra a ideia cretina de manter passarinhos saudáveis em gaiolas.

Digo que somos uns bobos porque temos a tendência... É melhor eu mudar para a primeira pessoa. Digo que sou uma boba porque eu, assim como outros indivíduos e individuas, tenho a tendência boba de romantizar a natureza.
A poesia barata.
Os pássaros verdes cantam, oh quanta beleza.

Mari, eu de fato me apaixonei por você e a sua morte foi um choque pra mim.

No domingo acordei cedo e, preocupada, fui trocar o jornal da gaiola, já todo cagado. Após alguns acordos não verbais, superamos essa etapa e deixei a ave novamente digna, num ambiente limpo, com água, sementes e frutas novas. Após um acordo com todos aqui em casa, decidimos que no dia seguinte a levaríamos ao veterinário especializado para verificar se havia esperanças.

À tarde, rompendo o silêncio raro da casa, Mari começou a cantar alto e forte. Aproximei-me curiosa e vi que no fio de tensão, em frente à minha casa, havia outra maritaca também a cantar. Elas conversavam!

Mari se comunicava.
Mari se despedia.

Ela, silvestre,
Eu a olhar, interpretativa.

Fiquei de fato emocionada.

Foi nessa mesma noite que ela partiu.
Ás minhas tantas angústias difusas, somou-se essa.

-

Em cima da geladeira, a gaiola vazia ainda espera que eu a devolva para a vizinha.
Já se vão dias.