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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sobre a contradição


"Sofia dobrou o papel, não já com tédio, senão com despeito, e por dois motivos que não se contradizem; mas a contradição é deste mundo."

Quincas Borba - Machado de Assis, 1891

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dos desafios de ser doutor(a) no século XIX

"Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dois anos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro." (p. 16).

"Guiomar não tinha dificuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e com tal afinco lidava por aprender, que a viúva - ao menos nessa parte -, sentia-se venturosa. Hás de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo à aplicação" (p. 32).



A mão e a luva [1874] - Machado de Assis

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sobre a distinção e o orgulho (repassado de susto)

"Na primeira noite de representação lírica, Fernando levou ao teatro a família. Foi uma festa para as três senhoras; D. Camila, apesar de sua lhaneza e modéstia, sentiu ao atravessar a multidão pelo braço do filho um aroma de orgulho, mas desse orgulho repassado de susto, que é antes a consciência da própria humildade, do que desvanecimento de egoísmo. As filhas partilhavam este sentimento; e acreditavam que todas as outras moças lhe invejavam aquele irmão." (Narrador, p.47)

"O ouro desprende de si não sei que miasmas que produzem febre, e causam vertigens e delírios. É necessário ter um espírito muito forte para resistir a essa infecção" (Aurélia, p. 170)

"Aqueles que se exercitam em jogar as armas, pensam que tudo se decide pela força. O mesmo acontece com o dinheiro. Quem o possui em abundância persuade-se que tudo se compra" (Aurélia, p. 170).

Senhora (1875), José de Alencar (1829-1977)

"[Em Senhora] Trata-se da compra de um marido; e teremos dado um passo adiante se refletirmos que essa compra tem um sentido social simbólico, pois é ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes da época, como o casamento por dinheiro. Ao inventar uma situação crua do esposo que se vende em contrato, mediante pagamento estipulado, o romancista desnuda as raízes da relação, isto é, faz uma análise socialmente radical, reduzindo o ato ao seu aspecto essencial de compra e venda." (Antonio Candido in Literatura e Sociedade, Capítulo 1, Crítica e Sociologia).

terça-feira, 4 de julho de 2017

Verdades e segredos

potencialidades
dor
coragem
Por exemplo, é descobrir que minha avó foi babá e ninguém me contou.
é descobrir
vergonha
criatividade
Baixada Fluminense
é sentir prazer sozinha de ser quem se é
debaixo do cobertor
muitos pensamentos
muitos corpos
potencialidades enquanto há vida
fotografias

sábado, 10 de junho de 2017

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

[...]

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!

[Paulicéia Desvaira, 1922]
[Mário de Andrade]

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sina

O homem.

A postura,
A imagem,
O cheiro,
O comportamento,
As lamentações.
Acho que minha paciência chegou ao fim.
Sei que tudo isso é muito difícil, e todos nós somos seres humanos absolutamente questionáveis, e que o dinheiro é curto, e as paranoias e traumas são muitas, e eu também estou para além do que seria considerada uma pessoa 'fácil de lidar', mas acho que cheguei no meu limite.

Talvez seja a sina das mulheres de nossas famílias,
Permanecerem sozinhas, corajosas e tristes.
Todas passam por isso,
Acho que minha hora vai chegando.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Meu coração palpita
Mãos do além estrangulam meu pescoço
Tento respirar fundo
Abro a janela
tiro o casaco que me fecha
Sinto um gosto de sangue
Recordo de Maria Celia, a professora, fustigada pelos alunos antes de descobrir que tinha Alzheimer
Como se fosse um pesadelo (mas estou bem acordada) lembro de sua imagem confusa entrando atrasada em sala de aula, procura papeis, procura ideias em sua cabeça, alunos se olham enfadados, mimados, exigentes. 
Eu, estou excessivamente viva, mas descontrolada. 
Minhas memórias estão em looping, pensamentos obsessivos, dor nas costas, pernas, braços, pescoço. Muito pensamentos, muitos, me sufocam. 
Ela, a professora, não se lembra de mais nada. Será um alívio triste?
Sigamos enquanto é possível.


[Era gripe.] 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O Ateneu - o início e o fim


Resultado de imagem para o ateneu crônica de saudades

"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."


"O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto se pode gerar de monotonia do trabalho como da ociosidade"


"Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas"

Rio, Janeiro-Março de 1888.






Raul Pompéia (1863-1895)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Sobre o não casamento de Conceição

"Num relevo mais forte, tão forte quanto nunca o sentira, foi-lhe aparecendo a diferença que havia entre ambos, de gosto, de tendências, de vida. [...] Ele lhe parecia agora como um desses recantos da mata, próximo ao riacho, num sombrio misterioso e confortante. Passando num meio-dia quente, ao trote penoso do cavalo, a gente para ali, olha a sombra e o verde como se fosse para um cantinho de céu...
Mas volvendo depois, numa manhã chuvosa, encontra-se o doce recanto enlameado, escavacado de minhocas, os lindos troncos escorregadios e lodosos, os galhos de redor pingando tristemente.
Da primeira vez, pensa-se em passar a vida inteira naquela frescura e naquela paz; mas à última, sai-se com o coração pesado, curado de bucolismo por muito tempo, vendo-se na realidade como é agressiva e inconstante a natureza..."

O Quinze, Rachel de Queiroz, 1930


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O enfermeiro - Machado de Assis

Adeus, meu caro senhor. Se achara que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também  com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: "Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados".


In: Mário de Andrade: seus contos preferidos, Luiz Rufatto (org), Ed. Tinta Negra.