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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mínima 9

"O homem sábio não persegue o que é agradável, mas a ausência de dor"

Aristóteles, Ética a Nicômaco apud Schopenhauer, A arte de ser feliz

Lisbon Revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

[...]
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...


Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...


Álvaro de Campos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Estava na biblioteca, as pessoas passam, meu olhar desatento as focaliza e retorna ao livro. Em minha direção vem um homem muito alto. Olhei, como sempre. Nosso olhar se cruzou em susto. Ele era negro. Não "moreno" que passa desapercebido em nossa escala cromática. Ele era negro preto retinto. Olhar para ele, em susto, imediatamente me causou um constrangimento, eu senti vergonha e logo pensei: se eu fosse esse cara eu ia mandar todo mundo pra puta que pariu.
20/07/2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mari (taca)

“Morreu o periquito
A gaiola vazia
Esconde um grito”
Leminski

Mari morreu durante a noite.
Quando acordamos, estava morta.
Fiquei chocada.
Embora eu já soubesse que a qualquer momento isso iria ocorrer, os três dias que ela ficou aqui em casa, agonizando, foram significativos pra mim.

Acho que os homens, e as mulheres, são sobretudo uns bobos.

Mari chegou na sexta, acidentalmente. Apareceu no chão do nosso quarto com a pata muito machucada.
Rapidamente consegui uma gaiola com a vizinha e a hospedei, com água, frutas e até sementes (também emprestadas) em cima da geladeira, onde ela ficaria ventilada e minimamente tranquila.

No sábado acordei e imediatamente fui ver se ela havia sobrevivido. Sim! Estava lá! Medrosa, arisca, desconfiada, sofrida, linda. Verde, com diversos tons, e os olhinhos negros.
Ah Mari! Se eu pudesse te ajudar de fato! E se você pudesse compreender que eu não quero o seu mal...
Quando sai à rua, a passear com os cachorros, que mundo novo se abria pra mim ao buscar seus companheiros: um bairro repleto de árvores altas e volumosas, um céu cheio de nuvens, e dezenas de aves a cruzar barulhentas essa exótica paisagem urbana.

Sempre tive algum interesse por pássaros.
Sempre fui radicalmente contra a ideia cretina de manter passarinhos saudáveis em gaiolas.

Digo que somos uns bobos porque temos a tendência... É melhor eu mudar para a primeira pessoa. Digo que sou uma boba porque eu, assim como outros indivíduos e individuas, tenho a tendência boba de romantizar a natureza.
A poesia barata.
Os pássaros verdes cantam, oh quanta beleza.

Mari, eu de fato me apaixonei por você e a sua morte foi um choque pra mim.

No domingo acordei cedo e, preocupada, fui trocar o jornal da gaiola, já todo cagado. Após alguns acordos não verbais, superamos essa etapa e deixei a ave novamente digna, num ambiente limpo, com água, sementes e frutas novas. Após um acordo com todos aqui em casa, decidimos que no dia seguinte a levaríamos ao veterinário especializado para verificar se havia esperanças.

À tarde, rompendo o silêncio raro da casa, Mari começou a cantar alto e forte. Aproximei-me curiosa e vi que no fio de tensão, em frente à minha casa, havia outra maritaca também a cantar. Elas conversavam!

Mari se comunicava.
Mari se despedia.

Ela, silvestre,
Eu a olhar, interpretativa.

Fiquei de fato emocionada.

Foi nessa mesma noite que ela partiu.
Ás minhas tantas angústias difusas, somou-se essa.

-

Em cima da geladeira, a gaiola vazia ainda espera que eu a devolva para a vizinha.
Já se vão dias.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Acaso

Se, por acaso, algo inesperado e novo surge diante de nós - um livro, um amigo, uma receita,
É o caso de prestar atenção:
Sem o acaso somos bobos somos máquinas
A andar na contramão.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Mucho más grave (M. Benedetti)

Todas las parcelas de mi vida tienen algo tuyo 
y eso en verdad no es nada extraordinario 
vos lo sabés tan objetivamente como yo. 
Sin embargo hay algo que quisiera aclararte, 
cuando digo todas las parcelas, 
no me refiero solo a esto de ahora, 
a esto de esperarte y aleluya encontrarte, 
y carajo perderte, 
y volverte a encontrar, 
y ojalá nada más. 
No me refiero a que de pronto digas, voy a llorar 
y yo con un discreto nudo en la garganta, bueno llorá. 
Y que un lindo aguacero invisible nos ampare 
y quizás por eso salga enseguida el sol. 
Ni me refiero a solo a que día tras día, 
aumente el stock de nuestras pequeñas y decisivas complicidades, 
o que yo pueda o creerme que puedo convertir mis reveses en victorias, 
o me hagas el tierno regalo de tu más reciente desesperación. 

No. 
La cosa es muchísimo más grave. 
Cuando digo todas las parcelas 
quiero decir que además de ese dulce cataclismo, 
también estas reescribiendo mi infancia, 
esa edad en que uno dice cosas adultas y solemnes 
y los solemnes adultos las celebran, 
y vos en cambio sabés que eso no sirve. 
Quiero decir que estás rearmando mi adolescencia, 
ese tiempo en que fui un viejo cargado de recelos, 
y vos sabés en cambio extraer de ese páramo, 
mi germen de alegría y regarlo mirándolo. 
Quiero decir que estás sacudiendo mi juventud, 
ese cántaro que nadie tomó nunca en sus manos, 
esa sombra que nadie arrimó a su sombra, 
y vos en cambio sabés estremecerla 
hasta que empiecen a caer las hojas secas, 
y quede la armazón de mi verdad sin proezas. 
Quiero decir que estás abrazando mi madurez 
esta mezcla de estupor y experiencia, 
este extraño confín de angustia y nieve, 
esta bujía que ilumina la muerte, 
este precipicio de la pobre vida. 
Como ves es más grave, 
Muchísimo más grave, 
Porque con estas y con otras palabras, 
quiero decir que no sos tan solo, 
la querida muchacha que sos, 
sino también las espléndidas o cautelosas mujeres 
que quise o quiero. 

Porque gracias a vos he descubierto, 
(dirás que ya era hora y con razón), 
que el amor es una bahía linda y generosa, 
que se ilumina y se oscurece, 
según venga la vida, 
una bahía donde los barcos llegan y se van, 
llegan con pájaros y augurios, 
y se van con sirenas y nubarrones. 
Una bahía linda y generosa, 
Donde los barcos llegan y se van. 
Pero vos, 
Por favor, 
No te vayas


Mario Benedetti.


[Para L.J.]

Maternidade Desnuda

Criar um filho,
Que desafio!

É preciso força, é preciso resistência física, é preciso amor.
Para ser amado e odiado,
(O trauma, mais cedo ou mais tarde, virá).

Criar um filho exige vida e, na total entrega, também um pouquinho de morte.

Meu filho,
Ouça a tua mãe,
Que tanto te ama.

Criar um filho é como dar um grito no escuro e o escuro torna-se luz.

Ana Antonia Moura



Dilema do intelectual II

Distinguir-se ou tornar-se igual?

Para produzirmos algo, temos que de algum modo enfrentar essa oposição dialética.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Gigante (Adrian Biniez)

"Gigante" é um filme delicado que narra a paixão de um segurança por uma auxiliar de limpeza, ambos funcionários de um supermercado de grande porte. O filme realiza também uma crônica sobre o olhar voyeur que tanto o protagonista como todos nós cultivamos nas grandes cidades.  Entrecortado e direcionado pelo foco das câmeras que nos cercam a todo momento, o olhar do segurança Jara espelha um tipo de olhar que todos nós, em alguma medida, cultivamos em nossas vidas cotidianas, alimentandos por nossa curiosidade cada vez mais invasiva e insaciável que pulula em jornais, novelas, filmes, sites de fofocas e redes sociais. Ao final, envolvidos por esse amor bruto e delicado, loucos para saber o que conversam na melancólica praia de Montevideo - controle-se e cuide da sua vida- somos obrigados a torcer de longe pelo casal.

Gigante.
Direção: Adrian Biniez
Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha/2009, 90 min

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Diário

O caderninho como ferramenta histórica das mulheres.

Resistência, persistência ou desistência?